Legado

20 Abr

Eu teria uns 5 anos no máximo. Ainda não tinha entrado para a escola mas nunca me esquecerei das palavras do meu pai. Apesar da idade, lembro-me de sentir que tinha chegado a hora de saber alguma coisa. Algo maior que todos nós, algo que vinha dos nossos antepassados e não podia terminar ali.

Estávamos sozinhos. Pegou em mim, sentou-me no ombro e, depois de uns minutos em silêncio, disse:

Estás a ver isto? Vê com calma. Vê o máximo que conseguires. Vês a linha do horizonte lá ao fundo? Pois bem, tudo o que o teu olhar alcança, pertence à nossa família e um dia será teu…

…TOU A GOZAR CRLH!! ACHAS MESMO QUE SIM!?? Somos o quê!?? Alguns Espírito Santo, não!?? Não tarda muito, fazia o discurso do rei leão e tu aí com essa cara de parvo quase a chorar. Granda totó. Bom, o que te queria dizer é que o nosso reino vai até ali àquela rede. Isso mesmo, está já aqui à frente. Melhor que nada. E mesmo assim, se algum dia aparecer um gajo da Câmara a dizer que roubámos 1metro à via pública, só tens é que te fazer de parvo e fingir que não sabes de nada. Entretanto isto arrasta-se nos tribunais e, com sorte, ainda tens que fazer esta conversa aos teus putos”.

Foi o que fiz agora mesmo.

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Filhos e enteados.

11 Abr

Foco.

9 Abr

Comecei a escrever um mail importante.

Parei para ouvir uma conversa que não me dizia respeito. Depois abri o instagram e vi 50 stories que adicionaram zero à minha vida. Fiquei uns 5min a observar a forma como uma árvore abanava com a ventania que está lá fora. Limpei o teclado. Arranquei sobrancelhas enquanto olhava para o vazio. Fiquei um bom bocado a pensar na vida porque me lembrei do que tenho para tratar fora daqui. Meti conversa com um colega que passava. Dei conversa a outro. Lembrei-me que hoje joga o FCP e que seria fixe se o jogo desse na tv. Fui confirmar e dá. Fixe! Ouvi colegas a falar do trabalho delas e resolvi opinar, em vez de fazer o meu.

Percebi, pela milésima vez, o quão fácil é distrair-me de toda e qualquer merda que esteja a fazer. Não sei como eram os judeus na escola e no trabalho mas eu bem que precisava de passar uns tempos num campo de concentração. Concentração e meditação, que é outra coisa que nunca consegui fazer.

Para terminar, escrevi isto à pressa. Sim, à pressa porque há trabalho importante para se fazer e não tenho a vossa vida.

Vou terminar o mail.

Calões.

Fazer castelos é fixe mas…

7 Abr

Há quem visite castelos e HÁ QUEM FAÇA CASTELOS.

Mas visitar castelos é muito mais fixe, não se iludam. Por mais que estas frases tentem – o melhor que podem – valorizar as pequenas coisas da vida, não é à toa que se chamam “pequenas coisas”.

As “grandes coisas” são mais caras. E ser mais caro é uma merda porque deixa logo de fora uma quantidade de malta que tem que viver as “pequenas coisas” em casa, em vez de vivê-las num destino paradisíaco. Ou num destino qualquer que não esteja abrangido pela Carris ou a mais de dois depósitos de gasóleo.

E se estão a pensar contrapor este texto com aquela ladaínha de que as melhores coisas da vida não custam dinheiro; que o amor não tem preço; que é preciso faltar-nos alguma coisa para começarmos a dar valor ao que temos, etc… então é porque além de serem literais pra caraças, são uns chatos de primeira que também não foram curtir as pequenas coisas da vida para lado nenhum.

Chatos e pobres. Não há pior.

Façam como quiserem. Mas façam.

3 Abr

Antes de tudo, vou já avisando que já fiz a minha parte na ajuda para Moçambique e até tenho lá amigos por quem temi o pior, como tal, ganhei o direito a dizer tudo o que me apetecer. Não é assim que funciona!? Gays podem gozar com gays, pretos com pretos, deficientes com deficientes, quem ajuda com quem é ajudado e por aí fora, certo?

Enfim, ajudei como pude e só não mandei dinheiro porque já sei como é… os putos apanham-se com uns trocos e vai de torrar tudo em gelados. As crianças moçambicanas não são diferentes das outras.

Mas no meio desta onda de solidariedade, o que me intriga é não haver uma instituição que – em vez de roupa, medicamentos e comida – nos peça para mandarmos o que as pessoas sujeitas aquele tipo de calamidades precisam mesmo. Braçadeiras e flamingos insufláveis.

E antes de começarem já a espumar com a aparente insensibilidade desta afirmação, pensem comigo… se estivessem com água pelo pescoço, cansados e prestes a desistir de lutar, preferiam que vos atirassem umas calças de ganga usadas, uma palete de latas de atum ou um par de braçadeiras!? Preferiam continuar a nadar, vestidos com roupa da Zara da colecção passada, toda mal conjugada… ou descansar um bocado em cima de um flamingo gigante!? Ah pois é.

Emociono-me com esta mobilização solidária e acredito que, no fundo, ainda há gente muito boa (sinto que não devia ter usado a expressão “no fundo”) mas chateia-me que ninguém tenha a visão e a capacidade de antecipar futuras calamidades. Pensemos um pouco sobre isto. Se não concordarem, já sabem, estão a um MBWAY-919919939 (@unicef_portugal) de mostrar a vossa indignação e fazer a diferença.

Uma mão cheia.

24 Mar

O Hulk tem muita força e usa calças partidas. O Batman atira facas feitas de morcego. O Homem-Aranha voa pelo meio dos prédios porque está pendurado. O Wolverine tem unhas de faca. O DeadPool tem dois paus nas costas. O Homem-de-Ferro luta com o braço esticado e a mão levantada. O Venon tem uma roupa preta de homem-aranha e lambe as pessoas. O Capitão-América tem a letra do nome da mãe na testa. Os zombies são pessoas com a cara estragada. Os vampiros bebem sumo de tomate. Não se “apanha sol” porque o sol está muito alto e não conseguimos apanhá-lo. Os dinossauros são amigos mas o T-Rex morde.

Aprendi isto tudo com o meu “domeio”.

E faz hoje cinco anos que chegou ao pé da “maisvelha” e disse: “És tu que tens o coração do meu pai!? Então dá cá, porque a partir agora, metade disso é meu.”.

Um herói.

Parabéns Super-Mannyboy!

As crianças não mentem.

19 Mar

Se não têm a sorte suprema de me conhecer pessoalmente, o meu puto do meio faz as honras da casa e descreve-me em poucas palavras.

Chamo a vossa atenção para o alto e magro. Isso mesmo… alto. E magro! E escusam de vir com a conversa de que aos olhos dos miúdos parecemos todos altos, etc etc. Alto e magro! IN YOUR FACES, BITCHES!!!

Tirando isso, digamos apenas que trabalho no meu trabalho, porque também não vale a pena estar a contar-vos mais do que aquilo que precisam de saber. E parece que não gosto de doces (porque os enfardo sofregamente nas costas dele, para não dar maus exemplos).

Sou do melhor clube do mundo, brincalhão e bastante económico, uma vez que me basta uma salada com croquetes para estar bem. Isso e um copo de água.

Um homem de sonho, eu sei.

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