Alerta Castanho

18 Nov

Uma manhã tão normal como qualquer outra. Eu, no carro, a caminho do meu destino. De repente, uma leve pontada na barriga, nada de especial. Apenas uma advertência interna que me dizia: “Olha que és capaz de estar com vontade de ir à casa-de-banho. Vê lá se não queres tratar disso, antes de começar a reunião“. Segui viagem, consciente de que talvez viesse a ser necessário mas sem preocupações.

Pouco depois, novo lembrete: “Olha que não restam grandes dúvidas, vais mesmo ter que tratar deste assunto“. E assim continuei. Mas ao terceiro toque, a minha consciência deixa claro: “Atenção que isto pode ser o toque para a saída… e tu não queres que a saída aconteça aqui, enquanto conduzes, POIS NÃO!??“.

Era oficial… estávamos na presença de um Code Brown e era preciso começar a delinear planos de emergência.

Daí em diante, o meu cérebro começou a criar imagens tenebrosas da minha pessoa a viver um inferno dentro do próprio carro ou, pior ainda, imagens de uma tentativa falhada de chegar ao meu destino e, já com as pessoas com quem ia reunir à minha frente, sofrer de uma “morte na praia”. Isso não podia acontecer e todos os alarmes dispararam em uníssono. Era preciso agir e era já!!

Adivinhando a existência de um café nas redondezas, não houve tempo para procurar estacionamento. Quatro piscas ligados, carro largado em cima de uma passadeira e começa a corrida para a vitória. Claro que não foi uma corrida rápida e ágil. Foi uma corrida contida e com a rigidez de quem sabe que muita actividade física poderia culminar com um inesperado baixar da guarda. E ninguém queria isso. Era preciso avançar mas sem nunca perder o foco.

E é aí que o meu cérebro maldoso, apercebendo-se da minha fragilidade, me faz olhar à volta e – quase inconscientemente – começa a mostrar-me os sítios onde, numa situação de desespero, eu poderia ter que ancorar o navio. Isso mesmo, num momento de profunda agonia, o meu cérebro, em vez de me dar força e fazer acreditar que era possível, começa a insinuar que talvez fosse boa ideia cagar no meio da rua. Exacto. Em plena cidade. No meio de Lisboa. Com pessoas a passar. Sendo que algumas delas poderiam ser as que iam reunir comigo e que, do nada, poderiam ver o seu interlocutor a aliviar-se no meio da cidade. Qual aliviar, qual quê… o verbo é mesmo cagar. De repente e sem explicação aparente, eu a cagar no meio da cidade. Graças a Deus não cedi a tamanha demência.

Segui firme no meu caminho e em direcção a um café que aparecia ao longe como um oásis num deserto. Entrei decidido e já com aquele olhar esbugalhado que transmite uma única mensagem: “ACUUUUUUUUUUDAM!!!“. Vi de imediato uma placa que indicava o WC e avancei sem sequer dizer bom dia.

Percorri um corredor enorme e comecei a acreditar que tudo ia acabar bem. Passo pela porta das senhoras e só de olhar lá para dentro, quase deitei tudo a perder. Chego ao wc dos homens, ponho a mão na maçaneta e… TRANCADO. Na porta, um sinal: “Só para clientes. Peça a chave no balcão“.

Arranco em nova missão mas quando chego ao balcão, dezenas de pessoas lutavam pela sua vez de pedir um café. E eu não podia esperar. Olho para o wc das senhoras e apenas um pensamento me veio à cabeça: “Há 1 minuto, estavas a equacionar cenários que acabavam contigo a cagar no meio da rua. Literalmente. Invadir aquele wc é o menor dos teus problemas“. Não hesitei.

Durante o meu tempo, não entrou nem saiu uma única pessoa daquela casa-de-banho. Consegui sair, sem que estivesse alguém por perto a questionar a minha presença no sítio errado. Virei costas e segui o meu caminho, mais feliz que nunca.

Correu tudo bem. Mas nunca , nunca substimem o poder de uma cólica.

 

foto rua.jpg

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9 Respostas to “Alerta Castanho”

  1. Maria.Cs 18/11/2016 às 14:32 #

    A isto se chama, literalmente, um texto de mer#@ 😆

  2. Sandra Marques de Paiva 18/11/2016 às 17:25 #

    Já passei pelo mesmo 🙂

  3. Joana Pereira Gouveia 18/11/2016 às 18:46 #

    Só quem já sentiu esse aperto é que sabe o prazer do alívio!

  4. Sandra 22/11/2016 às 14:04 #

    é por estas e por outras que acabo sempre por vir parar aqui, consegues me sempre arrancar uma gargalhada! só te digo que para quem sofre de síndrome do cólon irritável esta é uma realidade muito comum…

  5. Anónimo 02/12/2016 às 15:43 #

    ahahah! quem nunca passou por avisos castanhos que atire a primeira pedra!

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