Isto sim, seria histórico.

9 Mar

 

Amanhã será um dia do caraças. Quem diria que chegava aqui.” – Foi a última coisa que pensou, antes de ligar a uns amigos, na tentativa de marcar um jantar para comemorar tal feito.

Uma coisa calma. Até porque é terça-feira e não se passa nada de especial nesta cidade. E isso é bom… andamos mais à vontade e podemos beber uns copos relaxadamente, sem confusões. Vou marcar uma mesa ali perto do Chiado, num restaurante à altura da ocasião. A malta acedeu e assim começou a noite.

Muitas recordações, risada geral com histórias antigas. Alguma incredulidade pela importância do novo emprego e também algum orgulho de se ter um amigo “muita boss“. Muitos copos. Mais risada. Mais copos e muitas provocações entre cada um. “Aproveita agora!” – diziam uns. “Ganhas umas coisas mas perdes outras.” – diziam outros.

E no meio de vozes distorcidas pelo excesso de álcool, entre as imagens já desfocadas pelas luzes do restaurante e de sonoras gargalhadas, uma ideia ia ficando cada vez mais sozinha na sua cabeça: – “Noites destas, não voltarei a ter tão cedo…“. E isso começou a tomar conta do seu estado de espírito.

Não podemos ir já para casa! Ainda é cedo! Vamos beber mais uns copos aí a esses sítios onde vai a xavalada. Está tudo vazio, é uma noite excelente para o fazermos! Não me lixem!!!” – foram frases ditas já de voz arrastada e com a alma desesperada. Não sabia como seria a sua vida no dia seguinte mas, foda-se, hoje ainda era ele a decidir!

Acompanhado por um ou dois resistentes, beberam-se copos na rua, de pé encostado à parede como já nem se lembrava de fazer. Uns atrás dos outros, cigarros em cima de cigarros. E mais copos. O corpo já se encostava sem postura. Já não era estilo, era uma necessidade. Mas há anos que não se sentia tão novo, tão vivo. Uma merda completamente inesperada e irresponsável, levou-o de volta a outros anos, a outra vida. Uma vida que já só existia em fotos antigas e em peças jornalísticas que queriam fazer dele, uma pessoa normal. Já não o seria!?

Passam duas miúdas que metem conversa. Estranhamente nem sabem quem ele é. Ou então, não querem acreditar que, apesar das semelhanças, possa ser. Mais um copo, mais risada, mais cigarros. O amigo, já desabituado destas andanças, hasteia a bandeira branca e pede clemência. O seu corpo não aguenta mais e diz que se vai embora no primeiro táxi que passar. Não o contraria. Já fez bem o seu papel de fiel escudeiro. Mas ele fica mais um bocado. O fresco das ruas vazias está a saber-lhe bem.

Vamos para o Incógnito!?” – perguntam as miúdas. Miúdas, quer dizer, são mais novas que ele mas caraças… só mesmo o álcool, poderia transformá-las em miúdas. Não dão uma para a caixa, só falam de coisas que ele nem sabe o que são mas parecem boa gente. E mais importante ainda, são a companhia que lhe restou. Vamos então para o Incógnito!

Som a estalar na cabeça. Imagens difusas. Vozes dessíncronas e bocas que se mexem sem que nada do que dizem faça sentido. A pista vazia. Não mais que dez pessoas entre aquelas paredes. Um beijo. Aliás, um beijo daqueles que parecia vindo dos tais anos que já não se lembrava que tinha vivido. Prolongado, quente e cheio de vontade. Não era uma miúda mas sabia o que queria, o que fazia e a vontade que tinha.

Espera aí… um beijo!???” – pensou. Mas a noite ia lançada e há muito que não decidia em conformidade. Amanhã começava uma nova vida. Agora era aproveitar.

Puxado por um braço, cambaleando pela parede e tentando subir umas escadas enquanto uma boca sôfrega não o largava, lá voltou a sentir o vento na cara. Estava na rua mas não seria por muito tempo. Sem perceber como ou porquê, estava com a cabeça de fora da janela de um carro e via as luzes da cidade a passar por si. Ora calmas, ora frenéticas… mas sempre desfocadas.

Mais escadas. Uma porta e uma chave que teimava em não entrar. Lá entrou. Ou melhor, entraram. A chave, eles, ele. A chave na porta. Eles em casa. Ele nela.

Pouco fez. Felizmente, para a sua masculinidade, a fúria dela fez tudo. Não foi igual às outras vezes todas. Não houve cá delicadezas nem pruridos. Foi sujo, violento, ordinário e repetido como há muito achava que não poderia ser. No fim, apenas um pedido para que o levasse a um sítio e o deixasse lá. Sem grandes conversas.

E assim foi.

Entretanto, na sua nova vida (ou ausência da mesma) ninguém sabia dele. Não estava nos locais onde seria mais provável que estivesse e o telemóvel estava sem bateria há umas horas. E já estava tudo pronto. Comunicação social, convidados, todos o aparato montado. E ele atrasado.

No meio do nervoso miudinho, numa das ruas laterais à Assembleia (bem perto da discoteca de onde tinha saído há um par de horas), pára um Opel Corsa dos antigos. Batido na frente, janela traseira com plásticos a substituir o vidro e a porta da frente empenada ao ponto de só se conseguir fechar ao pontapé.

Óculos escuros, fato um bocado amarrotado, cara cansada e com um cheiro a álcool incontornável, ele despede-se da condutora (uma senhora com cerca de cinquenta anos, demasiado maquilhada para aquela hora da manhã) com aquela simpatia de quem sabe que nunca mais a vai ver. Observa o carro a arrancar, depois de precisar de três tentativas para voltar a pegar. O seu “Váá… vemo-nos por aí” sai-lhe com o volume de quem passou a noite a ouvir música demasiado alta e ainda tem os ouvidos a zumbir.

Vira-se e mentaliza-se que tem apenas que aguentar as próximas horas sem cair para o lado. Seria um péssimo começo e nem sequer era nada que o seu antecessor já não tivesse feito. Todas as caras se viram agora para aquela rua que, ainda há pouco, parecia ser tão secundária.

Sr. Presidente, não estávamos à espera que viesse daqui. Faça o favor de nos acompanhar. A cerimónia está quase a começar. Sente-se bem? Quer uma água? É normal que esteja nervoso num dia como este…“.

Não sabia como aguentaria tanto protocolo. Mas uma coisa era certa… tinha sido um campeão na noite da “largada de posse”. O futuro do país? Não fazia ideia. Para já, era preciso curar esta ressaca presidencial.

assembleia

5 Respostas to “Isto sim, seria histórico.”

  1. Anónimo 09/03/2016 às 16:16 #

    Espectáculo!

  2. Leoa Ferrenha 15/03/2016 às 16:06 #

    Muito bom…. (Embora logo no inicio algo me dissesse de quem se poderia tratar, e não me enganei)
    Parabéns…está mesmo muito bom!

  3. Pedro 22/03/2016 às 12:24 #

    Um dos melhores textos que escreveste por aqui. Advinhei a meio, mas não lhe retirou brilhantismo, de maneira nenhuma (também só depois é que reparei na data – sim, estou atrasado nas leituras). Metias o choro do Diogo Morgado algures e tinhas outro hit viral aqui.

    PS: 😉

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: