Eu, hipócrita, me confesso.

4 Set

Bem sei que já venho tarde para este debate sobre a fotografia da criança morta na praia. Já tudo se disse e, parece-me, já todos escolheram o seu lado da barricada.

Num dos cantos do ringue, chocados com a leveza com que se partilha e banaliza a dita imagem, estão os anti-partilha que apontam o dedo à hipocrisia com que nos indignamos hoje e nos esquecemos amanhã, sem que nada se faça para tentar ajudar aquelas pessoas. Do outro lado, estão todos os que defendem que estas chapadas de realidade nunca são demais. Que esta e todas as crianças do mundo deverão ser partilhadas para que, na nossa vidinha burguesa, não nos esqueçamos do terror que vivem tantos outros.

Sinto-me dividido.

A única certeza que tenho é que não consigo sequer imaginar o desespero de quem vive aquelas vidas. Posso tentar. Tentar. Mas jamais conseguirei aproximar-me do que sentem aquelas pessoas.

Sou um gajo de lágrima fácil, aliás, sou um pai de lágrima fácil. E o mais próximo que consigo estar daquela dor, é quando projecto os meus filhos naquela criança. O meu filho, tão querido que ele é, ali. Morto no meio de uma praia. A minha filha, a miúda mais gira do mundo, ali. Morta nos braços de alguém que a apanhou na areia. E, confesso-vos, sempre que vejo aquelas imagens desejo interiormente que os pais daquelas crianças também tenham morrido no naufrágio. Por eles, Deus queira que sim. Não quero imaginar que um pai, depois do horror de se separar do seu filho no meio do mar, algures num abrigo para sobreviventes, olha para um ecrã de televisão e, onde todos vemos um menino morto, ele vê o menino dele. Uma criança que, por decisão sua, embarcou naquela viagem. A criança que ele queria salvar de uma morte anunciada mas que, por desespero, se apressou a encontrar.

Na verdade, sou dos que apregoa que esta indignaçãozinha de facebook é uma hipocrisia de merda. Posts muito emocionais e revoltados com este mundo em que vivemos. Frases feitas, acompanhadas de imagens que esmagam qualquer um. Likes em textos bonitos. Discussões inflamadas com a malta do escritório. Tudo isto, antes da pergunta que realmente interessa nas nossas vidas:

Então e onde é que vamos almoçar!?“.

Sim, sou definitivamente dos anti-partilha. Sou um gajo de lágrima fácil mas não preciso de andar a divulgar aquela foto para mostrar ao mundo que aquilo me revolta e que tenho sentimentos. Sim, é isso mesmo. É esta a minha barricada. Não só não partilho como sinto a obrigação de passar esses posts rapidamente para não ficar numa angústia horrível quando, na verdade, só vim ao facebook ver mamas e escrever umas piadolas. E, acreditem em mim, crianças mortas são um mega “turn-off”. Sim, é isso. É este o meu lado da barricada.

Mas… em que medida é que esta minha posição, faz alguma coisa para ajudar aquelas pessoas? Ainda não fiz uma única transferência para as associações humanitárias que estão a fazer alguma coisa no terreno. Não estou a considerar enfiar-me num avião e rumar para o mediterrâneo (e como hipócrita que sou, admitamos, se o fizesse seria para passar uns dias em Santorini). E em cima disso tudo, nem sequer estou a fazer a minha parte na “divulgação da situação”.

Caraças! Afinal de contas, não estou em nenhuma barricada.

Estou apenas a criticar toda a gente, todas as barricadas, enquanto faço menos que qualquer um deles. E o pior disto tudo é que não estou sozinho. A probabilidade de muitos de vocês se reverem neste comportamento é enorme. Falamos muito, temos opiniões sensatas, criticamos um dos lados, criticamos o outro e assim ficamos. Somos uma terceira barricada. A barricada ponderada que nada faz. Como grande parte das restantes barricadas. E entretanto vai-se morrendo por lá.

Mas isto não fica por aqui, a hipocrisia continua.

No meio de todo o soco no estômago, no meio da minha revolta e enquanto secava os olhos, Lady Factos diz-me que teríamos que poupar este mês. É que além dos gastos das férias, ela não estava a aguentar a incapacidade não fazer nada e tinha acabado de doar XXX€ à Unicef. Eu, que há segundos estava revoltadíssimo, tive um primeiro pensamento sem filtro: “Quanto!??? Fónix, esta gaja passou-se!!!“.

Exactamente. O pai de lágrima fácil, cheio de sentimentos e vontade de mudar o mundo, num primeiro momento, não conseguiu evitar pensar no seu umbigo. Uma merda é o que sou. Até tive vergonha de lhe dizer o que me estava a passar pela cabeça. Processei a informação e limitei-me a dizer que tinha feito bem. Depois, senti que aquilo era uma atitude dela e não minha… não havia mérito meu e pensei que também deveria dar alguma coisa e, uma vez mais, veio o egoísmo ao de cima: “Epáá… ela já deu aquilo tudo. Parece-me que representa bem a solidariedade do casal. Ainda por cima se queremos fazer “aquele fim-de-semana prolongado” não podemos andar a gastar à toa“.

Pimba! Os sentimentos nobres a escorrerem-me pelo umbigo abaixo. O menino morto na praia, subitamente, estava na balança a ser comparada com um fds, uma jantarada, etc…

Ainda fiquei mais esmagado. Afinal sou mesmo como todos os outros. Fiz agora a minha transferência mas fodido com o facto de ter pensado se deveria ser de X€ ou Y€, em função do que poderia precisar para ir curtir mais uns dias de férias.

Serei o único??

Pensem nisto e se também se sentirem uns merdas, façam alguma coisa para mudar. Antes de determinarem o que vos parece muito ou pouco, pensem no que torram numa noite de copos com amigos, numa jantarada ou algo do género. Comparem e depois façam o que bem entenderem.

Aaah e tal mas esses gajos não usam bem o dinheiro…“. Não me fodam. Alguma coisa hão-de fazer e pouca ajuda será sempre melhor que ajuda nenhuma.

Cliquem na imagem e vejam uma forma de ajudar.
É aqui que se vê a nossa indignação.

unicef siria

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13 Respostas to “Eu, hipócrita, me confesso.”

  1. APD 04/09/2015 às 12:30 #

    Melhor post de sempre sobre o assunto!!
    É mesmo isso.

  2. Anónimo 04/09/2015 às 12:39 #

    De leitura obrigatória.

  3. Rita 04/09/2015 às 13:07 #

    Boa, Factos! Se te agrada saber, também vou fazer o mesmo! A lady factos também me convenceu!

    • Rita 04/09/2015 às 13:27 #

      Pronto, já está, não custou nada!! E com estas pequenas acções definimos, sem hipocrisias – qual o lado da barricada em que estamos.

  4. andreia 04/09/2015 às 13:33 #

    O que eu queria mesmo mesmo era que nenhuma fotografia daquelas existisse, mas já que existe e aconteceu, então bora lá fazer alguma coisa para que não aconteça mais…
    Infelizmente existe quem não o possa fazer porque tem os cêntimos contados mas, quem o pode acho que DEVE fazê-lo! Não para aliviar a consciência mas sim para ter consciência de que isto está a ultrapassar todos os limites possíveis e imagináveis!
    O que mais me custa nesta m***a toda é que os “poderosos” nada fazem para ajudar.
    Fiquei ontem a saber que o Canadá recusou-se a aceitar esta família como refugiados porque (veja-se lá…) não reuniam condições para serem considerados refugiados… Então eram o quê?
    O peso da morte daquele anjinho (na minha opinião) está todo no Canadá (egoístas de m***a)…

  5. Sara Costa 04/09/2015 às 13:36 #

    Num dia angustiante como o de ontem em que cada post de facebook é um murro no estômago, num dia em que se chega a casa angustiado como se nos faltasse o oxigénio, decides que tens que passar além da partilha e das palavras. Nesse momento em que efectivamente te decides a fazer alguma coisa numa esperança egoísta de dissipar a angústia, e o fazes começas a sentir que por muitos X’s antes do € que dês, que por muito que faças, a situação continua a doer e continuamos a não ver uma esperança que nos ajude a respirar outra vez… eu fiz a “minha parte” e continuo sem conseguir respirar… é só triste…

  6. Marta Santinhos 04/09/2015 às 14:42 #

    Acabei de ler aquilo que tenho pensado e não partilhei com ninguém.

    • Marta Santinhos 04/09/2015 às 15:30 #

      Quero com isto dizer que, para além de tudo isso, sou uma cobardolas 😐

  7. Mirone 04/09/2015 às 16:12 #

    Partilhei.

  8. Pedro Oliveira 05/09/2015 às 00:20 #

    Eu não partilhei a foto, mas já me insurgi contra muitos que vêem a sua partilha como uma indignaçãozeca, assim ao estilo de uma “tia” que acha “horribilérrimo” o que se está a passar, mas que em seguida continua a beber o seu chá e a afagar o fofo do caniche. Isto de reduzir as opiniões a dois lados da barricada não tem sentido. Até porque esse, o lado de quem partilhou a foto, é sempre descrito como acima – vazio, representativo apenas da revolta momentânea de alguém que, dias depois, irá sossegar. Aqui entro eu. Há cerca de 2 anos, por força de fotos ainda mais (estranho afirmar isto, mas não o faço levianamente) chocantes que esta, tiradas a crianças desfeitas em bombardeamentos na Palestina, comecei realmente a interessar-me por todos estes conflitos terríveis e, especialmente, por toda a tragédia que eles arrastam consigo. Li sobre o que se passava, pesquisei, interessei-me realmente e, mesmo não passando a ser um expert na matéria, finalmente senti o click para mudar, para agir, para realmente me indignar desde as entranhas. Resultou. E foi precisamente o facto de ser pai que fez a diferença. Foi o facto de as vítimas retratadas serem crianças da idade da minha que me fez levantar do sofá e reagir. Resultou. Daí que a foto que tem sido agora partilhada, na minha opinião, deva realmente ser partilhada. E indignar. E chocar. Resultou. Não é por coincidência que muitos dos artigos que agora circulam com indicações de como poderemos ajudar (com NIBS, contactos, etc) estão datados de 2 e 3 de Setembro. Resultou. E, pelo que tenho visto à minha volta, não se trata da tal indignaçãozeca que se traduz em nada. Felizmente tenho sabido de muita (sempre pouca) gente que já doou dinheiro, alguns que pensam em oferecer acolhimento, outros em doar bens em espécie. Resultou. E se nos choca a foto desta criança, ao menos que nos console a certeza de que a sua morte não foi em vão, mas antes serviu para que milhões de pessoas começassem, finalmente, a debater estes assuntos e, acima de tudo, a agir. A partilha da foto (mesmo que em excesso) resultou.

    • Factos de Treino 05/09/2015 às 09:28 #

      Não tenho como não concordar. Daí ter dito logo ao início que estava dividido. Achava que estava numa das barricadas mas, afinal, estava numa terceira, pior que todas as outras. Mas sim… o donativo da minha mulher, o meu é os de quem o fez depois de ler este texto (como algumas pessoas disseram que fizeram), aconteceram por causa dessa foto.

  9. Anónimo 05/09/2015 às 01:42 #

    O Melhor texto que li sobre o assunto!!!Parabéns!!!!!

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