Em busca da vergonha perfeita #4

30 Out

Ao fim da tarde fui ao dentista. Saí a correr, acelerei o passo e lá cheguei a horas.
Aliás, cheguei cinco minutos adiantado. Cinco minutos que podia ter aproveitado para me sentar numa agradável sala de espera, ao lado da senhora com muito bom ar que lá estava, enquanto ambos ficaríamos a ouvir a musiquinha ambiente que estava a tocar.

Mas não. Achei que era de aproveitar aqueles cinco minutos e ir ao wc antes da minha vez. Perguntei onde era e assim foi.

Percorri aqueles corredores, escutando apenas os meus passos no chão. Adoro as casas onde normalmente são os consultórios médicos. Antigas, chão de madeira, tectos altos, enormes, recuperadas e sempre no centro da cidade. Segui pelo corredor a imaginar o que seria viver ali e gostei ainda mais quando dei com um wc enorme e todo direitinho.

Já lá dentro preocupei-me em ser rápido e discreto. Não só estava quase a ser chamado, como não queria que o silêncio daquela casa fosse quebrado por mim. No wc.

Mas a minha rapidez esbarrou num obstáculo com que não contava. Onde era o raio do autoclismo!? Olhei à volta, por cima, de lado, no chão e nada. Zero botões. Quer dizer… estavam ali dois botões à altura dos tornozelos mas pareciam ser aqueles interruptores que os hospitais têm para chamar as enfermeiras.

Uma coisa era certa, nem pensar abandonar aquele local assim. O tempo a passar e eu a procurar, até que pensei: “Mas porque raio é que um consultório de dentista haveria de ter um alarme para enfermeiras!?? Não tem ar disso mas é bem capaz de ser o raio do autoclismo“. E carreguei.

Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!
Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi!

Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!
Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi! Pi!

Senhor Factos! Senhor Factos!! Está tudo bem aí dentro!?? – perguntava a recepcionista do consultório. Subitamente, toda aquela casa, todo aquele ambiente, era cortado por um alarme e por uma pessoa que gritava o meu nome.

Sim, está tudo bem! – respondi eu sem graça.
Então quando quiser, o dr. está à sua espera. – Boa. Já não bastava a vergonha, ainda tenho a pressão de saber que está toda a gente à espera da minha saída.

Na verdade, o que gostava de ter dito era: “Não, não está nada tudo bem! Com as manias das modernices, não consigo encontrar a merda do autoclismo e começo a acreditar que terá que vir alguém resolver esta situação. Foda-se!“. Mas não. Continuei à procura, até porque jamais abriria a porta “em busca de auxílio”.

Encontrei o raio do botão. Mais disfarçado não podia estar. Se a empresa que fez aquelas loiças de casa-de-banho, estiver metida no desaparecimento da Maddie, acreditem que nunca mais lhe põem a vista em cima.

Lá fui para a consulta.
Cinco minutos atrasado e todo suado.

20131030-225154.jpg

PS: Em busca da vergonha perfeita #3
Em busca da vergonha perfeita #2
Em busca da vergonha perfeita #1

4 Respostas to “Em busca da vergonha perfeita #4”

  1. O Sexo e a Idade 30/10/2013 às 23:33 #

    Ó Factos tu desculpa mas é impossivel não rir, não é ?
    Ahahahahahahahahahahahahah
    “Senhor Factos! Senhor Factos!! Está tudo bem aí dentro!?? ”
    Ahahahahahahahahahahahahahahah

  2. Sister V. 31/10/2013 às 11:49 #

    Se esta não é a vergonha perfeita, está a roçar perfeição 😀

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